Mulheres Positivas: Jamile Musafiri

Saiu no Estadão:
POR MULHERES POSITIVAS 18/10/2018, 19h16
FOTO: ARQUIVO PESSOAL

 

Jamile Musafiri é uma brasileira que achou na República Democrática do Congo um jeito de ajudar as mulheres do país africano a enfrentarem, de forma mais branda, sua dura realidade, guiada por um sistema tribal/patriarcal.

Após se casar com um congolês e se mudar para lá, Jamile constatou que a maioria das congolesas só tinham o casamento como destino de uma vida um pouco melhor, mesmo que esse casamento tivesse violência e falta de amor. “Na República Democrática do Congo a mulher que é casada adquire um status relevante na sociedade.” Foi ai que ela criou o projeto social Femme Pour La Paix, no qual oferece um pouco de paz e informação para essas mulheres.

Em sua jornada como empreendedora, ela criou a grife de roupas africanas Madame Nalwango. “Brasileiros acham que roupa africana é apenas para pretos, ou apenas para pessoas de uma religião específica”, constata. “Na verdade, minhas experiências no continente africano me incentivaram a criar o conceito de que os produtos africanos devem ser consumidos por todos os tipos de pessoas, o que quer dizer: todas as cores de peles, estilos de cabelos e manequins. Isso acontece no continente africano que é inclusive colorido!”. Confira a entrevista a seguir.

Como surgiu seu projeto social Femme Pour La Paix em prol das mulheres congolesas?

Na República Democrática do Congo a mulher que é casada adquire um status relevante na sociedade, mesmo que seja diariamente alvo de violência doméstica. O silêncio é mais importante para sustentar o status “honroso” de mulheres casadas. Dificilmente aprendem a viver fora da caixa dos costumes tribais, que ditam principalmente seus deveres, pautados em regime desigual, sem punição do agressor quando comparado a nós brasileiras. Este foi o momento onde criei o projeto Femme Pour La Paix. Entendi que poderia apresentar àquelas congolesas um ambiente de conhecimento, treinamento, descanso da alma, entretenimento e oportunidades de trabalho e empreendedorismo. Não esqueço do primeiro dia de convivência do projeto. Criamos gincana, fizemos aula de dança ao ar livre, oferecemos um lanche simples. No caminho de volta, elas me disseram: “Desse jeito, maman (dona, senhora), nós viveremos mais”.

Hoje, quais são os problemas que mais afligem essas mulheres?

As congolesas, em sua maioria, isto independe de classe social, parecem não possuir o controle de seu próprio destino. Me assusta o número de casamentos que são arranjados pelos pais ou tios, por exemplo: famílias ricas que desejam manter o status financeiro e tribal. Tem também as mulheres que são entregues pelos pais, homens, como forma de pagamento de dívidas. Elas aprendem que são inferiores desde que nascem. Por exemplo: em caso de inexistência de condições financeiras para custearem os estudos dos filhos, o filho homem terá sempre prioridade em detrimento da filha mulher. A desigualdade de gênero se expressa desde aí.

Então a desigualdade de gênero e a submissão a seus maridos é o que assola essas mulheres?

Já perguntei a causa deste tipo de submissão e a resposta que recebi foi: “c´est comme ça” – é assim mesmo… ou “minha família me aconselha a manter meu casamento, mesmo em caso de poligamia.” A maior parte tem filhos sem planejamento, conheço casais que é o homem quem estabelece quantos filhos terão, mesmo que a mulher se oponha. Conheci uma família que o marido estabeleceu que teriam 8 filhos de maneira consecutiva. Daí nascem 10, 15 crianças e nem sempre há condições de sustento. A educação é muito cara na República Democrática do Congo.

As congolesas podem trabalhar?

Normalmente as mulheres não têm emprego e as que têm, inclusive algumas que possuem um status social elevadíssimo, são verdadeiros fantoches de seus esposos, ao ponto de serem seus cônjuges que escolhem sua profissão, o que vão vestir e até comer. Faço um constante exercício de resiliência e repenso sempre o que ainda posso fazer. É inclusive difícil tentar fazer com que enxerguem que isto não é normal. Tenho de afirmar que não são todas as congolesas que enfrentam esta situação, existem mulheres que possuem companheiros de verdade, que respeitam, cuidam de suas esposas mas, ainda são exceções.

Existem discussões sobre empoderamento feminino no país?

O empoderamento feminino existe, mas, nos formato da República Democrática do Congo, o que traduzido em miúdos quer dizer: tal empoderamento é controlado pelas tradições tribais que impõe qual é o papel da mulher na sociedade e até onde ela pode ir. Existem mulheres em cargos de destaque mas quanto mais avançamos na hierarquia, menos mulheres são encontradas em posições de poder, e, quando lá estão, normalmente são solteiras.

Em sua jornada até aqui, prestou concurso para ser diplomata, trabalhou na ONU, estudou cinco novas línguas e escreveu para a Revista Raça. Conta um pouco mais sobre sua trajetória de vida.

Sou casada com um congolês, temos um filho e vivemos viajamos pelos países africanos e vou registrando em mim novos aprendizados. Fico de fato assustada com a gama de informação que recebo destes povos e de suas culturas. Não sei ao certo o que esta experiência tem produzido de forma real em mim, mas, tenho me rendido para entender tudo o que percebo. Já entendo que a razão dos kinois, (pessoas que nascem em Kinshasa, capital de RDC) serem tão imperativos no falar é o fato de terem vivenciado guerras, então, o seu idioma é sempre em forma de comandos. Na condição de estrangeira tenho administrado os ciúmes das congolesas ao constatarem que meu esposo casou-se com uma estrangeira. Percebo que algumas ficam incomodadas com minha liberdade de ser e agir e tentam me colocar numa caixa. Mas tenho esta situação bem arrumada em minha mente. Entendo inclusive a razão pela qual pensam e agem assim. Percebo que sempre se perguntam: o que ela tem de diferente? Então fazem uma triagem e começam a perceber que de fato pertenço a um outro lugar. Engraçado é que achava que seria algo mais tranquilo, mas sinto discriminação ainda sendo preta, num continente preto. Sinto mais a xenofobia quando o assunto é Jamile. Enfim, vou avançando como a água. Vou seguindo.

E seu lado empreendedor?

Criei a grife Madame Nalwango, onde estou tendo a oportunidade real de desmistificar hábitos enquanto vendo meus produtos.

Que hábitos?

Me refiro aos estereótipos, agora brasileiros de que roupa africana é apenas para pretos, ou apenas para pessoas de uma religião específica. Na verdade, minhas experiências no continente me incentivaram a criar o conceito de que os produtos africanos desde roupas, tecidos, joias e obras de arte devem ser consumidos por todos os tipos de pessoas, o que quer dizer: todas as cores de peles, estilos de cabelos e manequins. Isso acontece no continente africano que é inclusive colorido! Lá há também diversidade de línguas, religiões, tons de peles, tipos de cabelos e de olhos e muitas curvas. É muito interessante o quanto são diferentes entre si. Enfim, decidi que o meu empreendedorismo retrataria sempre o conceito de que os produtos da Madame Nalwango teriam como target os seres humanos.

Livro, filme e uma mulher que admira?

Livro: Sérgio Y. vai a América, de Alexandre Porto Vidal – diplomata e meu ex-mentor no Programa de Bolsas Prêmio para Carreira de Diplomata.
Filme: Hotel Rwanda!!!!!
Mulher: minha mãe, Silvia Cerqueira, tacitamente desenhou para mim, com seu comportamento, como lutar pelo que realmente dignifica e nunca desistir de meus objetivos.

fonte:  https://emais.estadao.com.br/blogs/mulheres-positivas/mulheres-positivas-jamile-musafiri/

3 thoughts on “Mulheres Positivas: Jamile Musafiri

    1. Você é especial e esteve presente em momentos importantes! Beijocas. Deus esteja sempre com você e com sua família.

  1. Muito inteligente e perspicaz, realmente o Brasil é um ótimo anfitrião para este negócio e com certeza a Bahia é uma grande vitrine, parabéns minha amiga, muito orgulho de você e da sua visão humana cultural, saindo de esteriótipos.

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